Meu espermograma veio alterado. Isso significa que sou infértil?

Ver palavras como “abaixo da referência”, “motilidade reduzida” ou “morfologia alterada” no espermograma costuma provocar uma conclusão imediata: “isso significa infertilidade”.

Na maioria das situações, essa interpretação é simplista.

O espermograma é um exame fundamental na avaliação da fertilidade masculina, mas um parâmetro isolado não determina, sozinho, se um homem é fértil ou infértil. A diretriz atual da European Association of Urology (EAU) reforça que concentração, motilidade e morfologia não são, individualmente, diagnósticas de infertilidade.

A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) faz uma distinção importante: os valores publicados em seu manual são referências obtidas em uma população, não fronteiras absolutas que separam homens férteis de homens inférteis.

Por isso, um espermograma alterado exige contexto, e em algumas situações, uma nova coleta antes de conclusões definitivas.

O que o espermograma avalia?

O exame analisa diferentes características do sêmen e dos espermatozoides.

Entre as principais estão:

ParâmetroO que avalia
VolumeQuantidade de sêmen obtida na ejaculação
ConcentraçãoQuantidade de espermatozoides por volume
Número totalQuantidade estimada no ejaculado completo
MotilidadeProporção de espermatozoides que se movimentam
Motilidade progressivaCapacidade de avançar de forma efetiva
MorfologiaCaracterísticas estruturais dos espermatozoides
VitalidadeProporção de espermatozoides vivos

A sexta edição do Manual de Laboratório da OMS para Exame e Processamento do Sêmen Humano, publicada em 2021 e ainda vigente, padroniza a avaliação desses parâmetros para melhorar a qualidade e a comparabilidade dos resultados.

É justamente por avaliar diferentes aspectos que o espermograma não deve ser resumido a “quantos espermatozoides existem”.

Um resultado abaixo da referência significa infertilidade?

Não necessariamente.

Esse é um dos pontos mais importantes para interpretar o exame corretamente.

Os limites de referência da OMS foram construídos a partir da distribuição dos resultados encontrados em homens cujas parceiras conseguiram engravidar em determinado período.

A própria OMS alerta que esses percentis não representam uma divisão clara entre fertilidade e subfertilidade.

Isso significa que um resultado um pouco abaixo de uma referência não transforma automaticamente alguém em “infértil”.

Da mesma forma, estar acima de todos os valores de referência não garante que uma gravidez ocorrerá.

A fertilidade depende de múltiplos fatores masculinos e femininos, e a investigação precisa considerar o contexto do casal.

Então por que um espermograma alterado importa?

Porque alterações podem indicar que algum componente da função reprodutiva masculina merece investigação.

A relevância tende a aumentar quando:

  • mais de um parâmetro está alterado;
  • as alterações são importantes;
  • o resultado permanece alterado em uma nova análise;
  • não são encontrados espermatozoides na amostra;
  • há histórico clínico ou reprodutivo relevante;
  • existem alterações ao exame físico ou outros fatores de risco.

A EAU recomenda investigação andrológica quando alterações são confirmadas em análises sucessivas e destaca que a avaliação deve incluir história médica e reprodutiva, fatores de estilo de vida, exame físico e espermograma.

Ou seja, o laudo é uma parte da investigação, não a investigação inteira.

Um espermograma alterado precisa ser repetido?

Em muitos casos, sim.

Esse ponto ganhou uma orientação global mais específica com a primeira Diretriz da OMS para Prevenção, Diagnóstico e Tratamento da Infertilidade, publicada em novembro de 2025.

Para homens de casais em investigação de infertilidade que apresentem um ou mais parâmetros fora das referências da OMS, a organização sugere repetir o espermograma após um intervalo mínimo de 11 semanas.

É importante entender a força dessa recomendação: a própria OMS a classifica como condicional, baseada em evidência de certeza muito baixa. Portanto, 11 semanas não devem ser tratadas como regra rígida aplicável a qualquer pessoa que faça um espermograma por qualquer motivo.

A diretriz da EAU, por sua vez, recomenda pelo menos duas análises consecutivas quando o exame inicial está alterado.

A necessidade e o momento da repetição devem ser definidos conforme o motivo do exame e a avaliação profissional.

Por que o resultado pode mudar entre duas coletas?

Porque os parâmetros seminais apresentam variabilidade biológica.

A OMS destaca que uma primeira análise fora dos valores de referência pode refletir uma alteração persistente, mas também pode sofrer influência de fatores transitórios. Entre os exemplos citados na diretriz de 2025 estão coleta incompleta da amostra, doença febril recente e variabilidade individual.

Isso explica por que uma alteração inesperada nem sempre deve levar diretamente a uma conclusão definitiva.

Também reforça a importância de seguir corretamente as orientações de preparo e coleta fornecidas pelo laboratório.

Se parte da amostra não foi coletada, se houve uma doença recente ou se alguma orientação não foi seguida, essa informação deve ser comunicada.

Febre pode alterar o espermograma?

Pode interferir.

Uma doença febril recente é reconhecida pela OMS como um dos fatores transitórios capazes de contribuir para alterações dos parâmetros seminais.

Isso ocorre porque a produção de espermatozoides é um processo contínuo e relativamente longo. A própria recomendação de aguardar pelo menos 11 semanas para uma nova análise alterada foi definida considerando a duração aproximada de um ciclo de espermatogênese.

Portanto, informar ao profissional se houve febre ou doença relevante nos meses anteriores pode ajudar a interpretar um resultado inesperado.

Morfologia ou motilidade alteradas, sozinhas, fecham diagnóstico?

Não.

A motilidade mostra como os espermatozoides se movimentam. A morfologia avalia suas características estruturais segundo critérios laboratoriais específicos.

Ambas são informações importantes, mas não funcionam como testes binários.

A EAU é clara ao afirmar que nenhum parâmetro individual do espermograma, incluindo concentração, motilidade ou morfologia, é diagnóstico por si só de infertilidade.

Isso evita dois erros comuns:

“Minha morfologia veio alterada, então não posso ter filhos.”

e

“Minha contagem veio boa, então minha fertilidade está garantida.”

Nenhuma das conclusões pode ser estabelecida apenas dessa forma.

Um espermograma normal garante fertilidade?

Também não.

Um exame dentro dos valores de referência é uma informação favorável sobre os parâmetros avaliados, mas não consegue avaliar sozinho todos os fatores envolvidos na capacidade de um casal conseguir uma gestação.

A OMS define infertilidade como uma condição do sistema reprodutivo masculino ou feminino caracterizada, em geral, pela ausência de gravidez após 12 meses ou mais de relações sexuais regulares sem contracepção.

Portanto, o diagnóstico não nasce simplesmente de uma coluna do espermograma estar marcada como normal ou alterada.

Se existe dificuldade persistente para engravidar, a avaliação deve considerar os dois parceiros.

O que costuma acontecer depois de um espermograma alterado?

O próximo passo depende do tipo e da intensidade da alteração.

Em vez de solicitar vários exames automaticamente, a investigação costuma começar tentando responder perguntas básicas:

A coleta foi realizada adequadamente?

Houve alguma doença recente?

A alteração apareceu em mais de uma análise?

Existe histórico de cirurgias, doenças ou problemas reprodutivos?

Há medicamentos ou outros fatores relevantes?

Existem alterações no exame físico?

Quando o resultado permanece alterado, a avaliação especializada pode indicar exames complementares de acordo com o padrão encontrado.

A EAU recomenda uma investigação mais ampla dos homens com problemas de fertilidade e parâmetros seminais anormais, sem sugerir que testes adicionais sejam pedidos indiscriminadamente para todos.

Essa diferença é importante: mais exames não significam necessariamente uma investigação melhor.

O objetivo é esclarecer o que aquele resultado realmente significa.

Afinal, espermograma alterado significa infertilidade?

Não, um resultado alterado isoladamente não confirma infertilidade.

O espermograma é uma ferramenta importante para avaliar a função reprodutiva masculina, mas seus parâmetros precisam ser interpretados em conjunto.

Os valores de referência da OMS não funcionam como uma linha absoluta entre fértil e infértil.

Além disso, fatores transitórios podem modificar uma coleta e, quando existem alterações, pode ser necessário repetir o exame antes de avançar na investigação.

A pergunta mais útil, portanto, não é apenas:

“Meu resultado está fora da referência?”

Mas:

“Essa alteração é consistente, qual é sua relevância e o que precisa ser investigado a partir daqui?”

Precisa realizar um espermograma?

O Laboratório Cevallos realiza espermograma em Divinópolis.

Para confirmar as orientações de preparo e coleta antes do exame, entre em contato com a equipe.

WhatsApp: (37) 99130-0142

Referências científicas

  1. World Health Organization. Guideline for the prevention, diagnosis and treatment of infertility. Geneva: WHO; 2025. Acessar a diretriz da OMS
  2. World Health Organization. Recommendation for repeating semen analysis in male-factor infertility. 2025. Acessar a recomendação específica
  3. World Health Organization. WHO laboratory manual for the examination and processing of human semen. 6ª ed. Geneva: WHO; 2021. Acessar o manual da OMS
  4. European Association of Urology. Guidelines on Sexual and Reproductive Health, Male Infertility. Acessar a diretriz da EAU
  5. American Urological Association / American Society for Reproductive Medicine. Diagnosis and Treatment of Infertility in Men, AUA/ASRM Guideline Part I. Acessar a diretriz AUA/ASRM