Alguém disse “não aguento mais”. Como eu devo responder?
“Não aguento mais.”
“Queria desaparecer.”
“Não vejo saída.”
É comum ouvir uma frase assim e não saber se a pessoa está apenas desabafando, se devemos perguntar mais ou se existe risco real.
A primeira informação importante é: não existe uma frase isolada capaz de confirmar que alguém está pensando em suicídio. O Ministério da Saúde orienta observar essas manifestações dentro do contexto, especialmente quando mudanças de comportamento, falas de desesperança, isolamento ou outros sinais aparecem juntos. (gov.br)
Também não é necessário encontrar uma resposta perfeita.
O mais importante é levar o sofrimento a sério, criar espaço para a pessoa falar, perguntar diretamente quando houver preocupação e ajudá-la a ter acesso a apoio profissional.
Quais sinais merecem atenção?
O suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial. Não existe uma fórmula que permita prever com certeza quando uma pessoa está em risco. (gov.br)
Alguns comportamentos, porém, merecem atenção, principalmente quando são novos, se intensificam ou aparecem em conjunto.
Entre eles estão:
- falas sobre morte, desaparecer ou não querer mais viver;
- sensação intensa de desesperança;
- dizer que é um peso para outras pessoas;
- isolamento de familiares e amigos;
- abandono de planos para o futuro;
- mudanças importantes de comportamento;
- despedidas incomuns;
- organização de assuntos pessoais como se estivesse se despedindo;
- procura por formas de provocar a própria morte.
A Organização Mundial da Saúde também reconhece mudanças importantes de humor, isolamento social e manifestações diretas ou indiretas sobre morte como sinais que devem ser levados a sério. (who.int)
Nenhum desses sinais, sozinho, confirma que uma tentativa acontecerá.
Mas ignorá-los porque “a pessoa sempre fala isso” ou porque “ela parece bem hoje” também pode ser um erro.
Posso perguntar diretamente se a pessoa está pensando em suicídio?
Sim.
Existe um receio comum de que perguntar sobre suicídio possa “colocar a ideia na cabeça” de alguém.
A Organização Mundial da Saúde afirma que perguntar diretamente não leva uma pessoa a agir em decorrência de pensamentos suicidas. Pelo contrário, a conversa pode diminuir a ansiedade e ajudar alguém a se sentir compreendido. (who.int)
Se uma fala ou mudança de comportamento causou preocupação, perguntas claras podem ser mais úteis do que tentar adivinhar.
Por exemplo:
“Você está pensando em morrer?”
“Você tem pensado em tirar a própria vida?”
A pergunta deve ser feita com calma, sem julgamento e com disponibilidade real para ouvir a resposta.
Evitar o assunto não torna o risco menor.
O que dizer quando alguém revela que está em sofrimento?
A primeira tarefa não é convencer a pessoa de que “a vida é boa”.
É ouvir.
O Ministério da Saúde recomenda procurar um momento e um local adequados para conversar, demonstrar disponibilidade, ouvir com mente aberta e oferecer apoio. (gov.br)
Frases simples podem abrir espaço:
“Quer me contar o que está acontecendo?”
“Estou aqui para ouvir.”
“Você não precisa resolver isso sozinho.”
“Vamos procurar ajuda juntos?”
Observe que nenhuma delas promete resolver o problema.
Elas comunicam presença.
O que é melhor evitar?
Algumas respostas podem surgir com boa intenção, mas acabar diminuindo a experiência da pessoa.
Entre elas:
“Isso vai passar.”
“Pense positivo.”
“Você tem tudo para ser feliz.”
“Tem gente passando por coisas muito piores.”
“Você precisa ser forte.”
Comparações e julgamentos podem aumentar a sensação de que o sofrimento não está sendo compreendido.
Também não é adequado transformar a conversa em um debate sobre se a pessoa “tem motivos” para se sentir daquela maneira.
O sofrimento não precisa parecer proporcional aos olhos de outra pessoa para ser real.
Preciso saber resolver o problema?
Não.
Amigos e familiares não precisam assumir o papel de psicólogo ou psiquiatra nem substituir um serviço de emergência.
A contribuição mais importante pode ser justamente conectar a pessoa a quem consegue oferecer o cuidado necessário.
O Ministério da Saúde orienta incentivar a procura por profissionais e serviços de saúde e, quando possível, oferecer-se para acompanhar a pessoa. (gov.br)
Isso pode incluir:
- Unidade Básica de Saúde;
- Centro de Atenção Psicossocial (CAPS);
- profissionais de saúde mental;
- serviços de urgência e emergência;
- apoio emocional pelo CVV.
A Rede de Atenção Psicossocial do SUS articula diferentes pontos de cuidado, desde a atenção básica até CAPS, hospitais, UPA e SAMU. (gov.br)
Quando a situação é uma emergência?
Se a pessoa afirma que pretende se matar, existe perigo imediato ou você acredita que ela pode agir naquele momento, a prioridade muda.
Não deixe a pessoa sozinha.
Procure ajuda de emergência e envolva alguém de confiança que possa participar do cuidado.
Também é recomendado reduzir o acesso a meios potencialmente letais enquanto o atendimento é acionado. (gov.br)
No Brasil, podem ser procurados:
SAMU: 192
UPA 24h
Pronto-socorro ou hospital
Numa situação de risco imediato, não é necessário esperar a pessoa “melhorar um pouco” para buscar ajuda.
E se a pessoa pedir segredo?
Essa situação pode ser difícil.
Quando alguém compartilha algo íntimo, é natural querer preservar a confiança.
Mas, se existe risco de morte, a segurança vem antes do compromisso de manter tudo entre duas pessoas.
Pode ser necessário procurar um familiar, alguém de confiança ou um serviço de saúde, mesmo que a pessoa inicialmente resista.
Isso não significa espalhar a informação.
Significa envolver somente quem precisa participar para tornar aquela situação mais segura.
Depois da crise, devo continuar em contato?
Sim.
A prevenção não termina quando uma conversa difícil acaba.
O Ministério da Saúde recomenda manter contato e acompanhar como a pessoa está depois daquele momento. (gov.br)
Uma mensagem simples alguns dias depois pode ter valor:
“Como você está hoje?”
“Conseguiu procurar aquele atendimento?”
“Quer que eu vá com você?”
A ideia não é vigiar.
É mostrar que o apoio oferecido não desapareceu assim que a crise saiu do centro da conversa.
Setembro Amarelo: por que falar sobre isso?
10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio e integra oficialmente o Calendário da Saúde do Ministério da Saúde. (gov.br)
A campanha de Setembro Amarelo ajuda a ampliar conversas sobre prevenção, mas o cuidado não precisa ficar concentrado em um único mês.
Informação correta pode reduzir alguns dos principais obstáculos diante de uma situação de sofrimento:
o medo de perguntar;
a tentativa de minimizar;
a expectativa de encontrar a frase perfeita;
e a dúvida sobre onde procurar ajuda.
Quem está ao lado não precisa ter todas as respostas.
Precisa saber reconhecer quando é hora de ouvir, permanecer próximo e buscar apoio.
Onde buscar ajuda?
CVV, Centro de Valorização da Vida
O CVV oferece apoio emocional de forma gratuita e sigilosa.
Telefone: 188
O atendimento funciona 24 horas por dia, todos os dias. (cvv.org.br)
Também existem opções de atendimento pelo site do CVV.
SUS
A pessoa também pode procurar:
- Unidade Básica de Saúde;
- CAPS;
- UPA 24h;
- pronto-socorro;
- hospitais.
Em risco imediato
SAMU: 192
Não deixe a pessoa sozinha e procure atendimento de urgência.
O que realmente ajuda quando alguém diz que não aguenta mais?
Não existe uma pergunta capaz de prever todos os casos e não existe uma resposta pronta capaz de resolver uma crise.
Mas algumas atitudes são importantes:
levar a fala a sério;
perguntar diretamente quando houver preocupação;
ouvir sem julgamento;
não minimizar nem comparar o sofrimento;
incentivar a busca por um profissional;
acompanhar a pessoa até o atendimento quando possível;
e agir rapidamente quando houver risco imediato.
Perguntar sobre suicídio não cria a ideia.
Ignorar o sofrimento também não faz com que ele desapareça.
No Setembro Amarelo e durante todo o ano, uma conversa responsável pode ser parte de uma rede maior de cuidado.
Referências
- Ministério da Saúde. Suicídio, prevenção. Orientações sobre sinais de alerta, abordagem, suporte e situações de risco imediato. Acessar a orientação oficial
- Ministério da Saúde. Ações para prevenção do suicídio e Rede de Atenção Psicossocial. Atualizado em julho de 2026. Acessar as informações sobre a rede de cuidado
- Ministério da Saúde. Calendário da Saúde, setembro. Atualizado em maio de 2026. Acessar o calendário oficial
- World Health Organization. Suicide, Questions and Answers. Orientações sobre como conversar com uma pessoa que pode estar pensando em suicídio. Acessar a orientação da OMS
- Centro de Valorização da Vida, CVV. Acolher para cuidar. Informações sobre apoio emocional e atendimento pelo 188. Acessar o CVV

